Empresários do setor de turismo apontam prioridades para investimentos

Empresários do setor de turismo apontam prioridades para investimentos

Uma pesquisa divulgada pelo Ministério do Turismo nesta semana mostra que o número de visitantes estrangeiros no Brasil se manteve praticamente o mesmo nos últimos três anos. Para movimentar o setor e incentivar a vinda de investidores internacionais, o empresariado aponta algumas prioridades. Mais investimento em segurança pública, em infraestrutura e no combate à corrupção foram citados pelos empresários ouvidos pela Agência Brasil, durante o Encontro de Líderes do Turismo, realizado em Foz do Iguaçu (PR).O diretor comercial do Grupo Recanto Cataratas, Edilson Andrade, que atua no mercado de hotelaria em Foz do Iguaçu (PR), afirma que a iniciativa privada acredita no desenvolvimento do potencial do turismo e, por isso, nunca deixou de investir. Segundo Andrade, no entanto, o setor mais ações estruturantes por parte do governo. “Um exemplo é a experiência de viajar de forma rodoviária, falta infraestrutura. As vias não estão na mesma categoria de quando o turista visita a Europa, os Estados Unidos, que ele volta falando maravilhas do quanto se sentiu seguro em viajar de carro com a família”, diz.O Brasil tem atualmente uma malha rodoviária com pouco mais de 1,7 milhão de quilômetros em extensão, no entanto, de acordo com o Anuário CNT do Transporte 2018, apenas 12,4% das rodovias são pavimentadas. A qualidade da pavimentação influencia na segurança durante o transporte dos turistas, mas a circulação nas cidades também pode representar um risco sob outro aspecto de segurança: a violência.

Influência da segurança

No ranking criado pelo aplicativo gratuito Safe Around, que compila dados de sites governamentais para orientar os turistas quanto à segurança, o Brasil aparece classificado como um país de médio risco para viajar e ocupa a 81ª colocação, entre os 162 países avaliados.

A ferramenta utiliza oito critérios de avaliação e o Brasil foi classificado como médio risco nos quesitos risco geral, golpes, transportes, desastres naturais e segurança para mulheres. O terrorismo é o único quesito em que o país é avaliado como de baixo risco. Já quando o assunto é furto e assaltos a mão armada, o Brasil é classificado como de alto risco.

Mesmo com todas essas limitações, o grupo em que Edilson Andrade atua vê com otimismo a expectativa apontada pelo Plano Nacional de Turismo, de dobrar o número de visitantes internacionais e atingir a meta de 12 mil visitantes estrangeiros ao ano, até 2022. “De dois anos para cá, nós saímos de uma infraestrutura de 300 unidades, 300 apartamentos, de um resort importante e conhecido, para, simplesmente, 1.000 unidades. Então, a gente mais que triplicou a oferta”, diz.

Outra empresária de Foz do Iguaçu que tem boa expectativa para o setor é a diretora-geral CEO do Parque das Aves, Carmel Croukamp, que atua à frente do empreendimento há 10 anos. O empreendimento cresceu e atualmente recebe 830 mil visitantes ao ano. No período, o grupo mudou o foco de atuação e a comunicação com os visitantes. A decisão foi motivada pela extinção de uma espécie de ave da região, o pararu-espelho, que fez com que o parque passasse a concentrar esforços na conservação de 120 espécies e subespécies de Mata Atlântica.

Para Carmel, casos de consolidação de marca, como a mudança em seu empreendimento, ou ainda exemplos de países como Canadá, Austrália e Dubai podem servir de modelos na criação de marcas para os destinos no Brasil e favorecer a promoção e comercialização dos serviços e produtos turísticos brasileiros no mercado internacional.

Embratur

A atividade é atribuição do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur). O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, tem reforçado a ideia de fortalecer a Embratur tornando-a uma agência de promoção do turismo.

Essa é uma das mudanças propostas nos projetos de lei 2.724/2015 e 7.425/17, que criam uma nova fonte de recursos a partir de um percentual de 1,7% da arrecadação bruta dos concursos e das loterias federais, que seria deduzido dos 20% da taxa de administração atualmente paga à Caixa Econômica Federal.

A nova fonte serviria para tornar a Embratur sustentável nas ações de promoção e divulgação dos destinos brasileiros em outros países e também criaria novas atribuições para a instituição. Segundo o presidente da Comissão Permanente de Turismo na Câmara dos Deputados, Newton Cardoso Jr. (MDB-MG), a agência funcionaria no formato de serviço social autônomo como as entidades pertencentes ao Sistema “S”.

O deputado afirma que a mudança tornaria viável a possibilidade de a Embratur financiar projetos para o desenvolvimento do turismo, além de fomentar a capacitação de mão de obra especializada para o setor. “Determinadas regiões do país não têm oferta de mão de obra qualificada. Se você vai trazer de fora o projeto fica muito caro, e pode até se inviabilizar, então, investir em qualificação, treinamento, preparação de pessoas no turismo é fundamental para gerar emprego, inclusive”, diz.

Projetos em debate

De acordo com o deputado, a pauta do governo federal para o setor é convergente com a da Comissão Permanente de Turismo na Câmara dos Deputados. Mesmo assim, segundo ele, alguns pontos vistos como prioridades enfrentam resistência no Congresso Nacional. Um exemplo é a proposta que torna legais empreendimentos como cassinos e outros relacionados a jogos de azar.

projeto de lei 442/1991 que trata desse tema tramita na Câmara dos Deputados. O texto já recebeu várias emendas e, atualmente, inclui diferentes formas de jogos, inclusive, os mais modernos, como as apostas online. Para o deputado Newton Cardoso Jr, a abrangência pode ser um fator que dificulta a aprovação da matéria. Por isso, ele já trabalha em uma proposição que pretende focar na liberação de cassinos nas chamadas áreas especiais para desenvolvimento turístico.

Segundo ele, pesquisas indicam que a atividade, caso seja liberada, tem potencial de gerar mais 600 mil empregos no país e poderia injetar R$ 30 bilhões em arrecadação de tributos. Com a proibição dos cassinos no Brasil desde 1946, “esse tipo de jogo migrou para a marginalidade e o país tem perdido a oportunidade de investimento, negócios e geração de emprego”, diz.

Existem dois debates acerca do assunto dentro do Congresso Nacional. Um seria a ideia de liberar os cassinos apenas em grandes resorts, de forma integrada. A outra proposta é a defendida pelo presidente da Comissão de Turismo. Segundo ele, a ideia de instalar os cassinos nas áreas especiais para desenvolvimento turístico “promoverá a pulverização e regionalização do turismo, distante dos grandes centros urbanos”.

A ideia é criar as áreas especiais com delimitação geográfica de regiões com diferentes vocações para turismo e facilitar de forma administrativa, com isenção de tributos, celeridade para instalação de equipamentos turísticos e nas concessões de licenças. Os cassinos seriam um dos equipamentos previstos nessas áreas diferenciadas, com delimitação de número desse tipo de estabelecimento, de acordo com a população de cada área.

Taxas de juros, linhas de crédito e financiamento

Além das matérias já em debate no Congresso, o deputado diz que a comissão também tem buscado se aproximar do “trade turístico”, ou seja, dos diferentes setores econômicos envolvidos no negócio do turismo. Um dos setores que faz parte do trade é o do empreendedor, que, embora tenha o Programa de Desenvolvimento e Estruturação do Turismo (Prodetur+Turismo), criado pelo governo para facilitar obtenção de financiamento com juros diferenciados, pede mais atenção para o pequeno empreendedor. A proprietária do Concept Design Hostel e Suítes, Cyntia Braga, atua no setor hoteleiro há cinco anos e diz que a maior dificuldade enfrentada é empreender a juros baixos quando se é pequeno.

A empresária conta que criou o negócio com muita pesquisa e planejamento, mas os resultados foram surpreendentes e a demanda cresceu rapidamente, com isso veio a necessidade de expansão. “Eu já tenho a minha demanda, eu já vislumbrei um crescimento interessante para a gente, já fiz a minha lição de casa, já estou com muitas coisas engatilhadas, premiações, altas pontuações em canais de vendas, já comprei um terreno ao lado, que está esperando o dinheiro para a ampliação, que até agora não chegou”, diz.

Cyntia criou um modelo de negócios entre o hostel e o hotel três estrelas, com uma tarifa diferenciada. A demanda cresceu criando uma necessidade de duplicar o atendimento para os quartos privativos. Para isso, ela precisa investir na construção de um novo bloco, mas não encontra crédito no mercado para o perfil de negócio.

Segundo a empresária, os modelos financiados pelo Fundo Geral de Turismo (Fungetur) e ofertados por meio do Prodetur+Turismo atingem grandes projetos, ou prefeituras e estados, e excluem o pequeno empreendedor que precisa recorrer aos juros comuns ofertados pelos bancos. “Você se endividar com juros de mais de 1% ao ano não dá, não tem como. É uma bola de neve”, diz.

Ações voltadas para turistas

Outra aposta do governo para atrair turistas é o decreto que libera a exigência de vistos de entrada no Brasil para turistas dos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Japão. A medida entra em vigor na segunda-feira (17).

Os turistas desses países já eram beneficiados com o visto eletrônico e, de acordo com o governo, o total de visitantes dessas quatro nacionalidades cresceu 15,73% em 2018. Os canadenses foram os que mais aproveitaram a iniciativa, com um salto de 45,3%, seguidos dos australianos (24,7%), norte-americanos (13,3%) e japoneses (5,5%).

“Os números mostram que estamos no caminho certo para alavancar o turismo brasileiro e posicioná-lo entre os grandes destinos internacionais. Temos a expectativa de que, com a isenção de visto para esses quatro países, os próximos resultados sejam ainda mais expressivos”, destaca o ministro Marcelo Álvaro Antônio.

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